quarta-feira, 12 de maio de 2010

periferiacentroperiferia

Os periféricos não necessitam da aprovação dos centros.
Todas as cópias feitas dos movimentos surgidos nos grandes centros se transformaram em outra coisa: nem o que era, nem o que foi.
O trânsito entre centro e periferia e a falta de recursos para investir em produtos periféricos fizeram com que a criação fosse subestimada.
Defendo que hoje o que vem da periferia é que é o novo. Velho jaz centro. Novo som periférico.
A cópia jamais será cópia e muito menos o original. É uma outra coisa, é outra criação... mas se denominarmos tudo com outros nomes, serão nome infinitos, para infinitas qualidades criativas que se materializam enquanto produto, arte, conceito.
Cansados de estarem à margem, agora fazem da margem, o centro. E do centro, fazem o centro de margem. Um movimento contrário? Não. Acredito que seja um movimento à favor. À favor de todas/os que se cansaram de esperar. Deixem Gigi e Gogo a esperrar Godot. Eles sim, eternizados na angústia da espera, podem ter esse papel. E pronto! Eles bastam.
A política da revolução já é. Agora, presente, nem tão sorridente assim, mas com efeitos que superam o controle e a censura das mídias, da indústria do entretenimento, dos grandes centros de estudos. Fogem porque não precisam deles para existirem.
Angústia, fome, solidão, abjeção transformada em criação, em música, dança, intervenção.
Talvez sejamos punks demais: em atitude. Se somos escravos e senhores na escrita e da linguagem, sejamos nela e por ela, contaminados pelo que interessa. O que interessa é fazer-me ouvir por mim e distribuir as tantas vozes que ouvi e ouço a tantos tempos.
Sair da condição de vítima e passar a ser o autor de si, ao mesmo tempo que posso reconhecer o limite das palavras e das condições culturais expostas e que me afetam diretamente, é o trabalho que se é realizado dentro da linguagem para, talvez, encontrar um caminho fora dela. Se for possível, ele existirá.
Mas, são pelos caminhos que se constroem momentos. Não é possível, ainda, ter a certeza da marginalidade radical da linguagem. Sair dela, pleitear (no sentido de fazer por conseguir e questionar em juízo), é fato?
Para tudo, é preciso reconhecer. O reconhecimento livra-me da carga e do pesado fardo de dar respostas prontas para questões ainda não conhecidas. É um questionamento, talvez mais um dos milhares, sem respostas óbvias.
Talvez circularmente pudesse responder, mas não verticalmente nem horizontalmente.
A necessidade de responder uma questão é que leva a muitos pesquisadores a debruçarem suas valiosas vidas a atingir uma satisfatória pergunta. Ao meu intento e ao meu gosto, admiro coisas que passeiam de mãos dadas com a vida, o cotidiano, as várias histórias invisíveis...
E, sendo invisíveis, algo os transformam em vidas com essa característica. Uma tecnologia de pensamento (ouço Foucault enquanto ouço Dead Things de Philip Glass). Mas, se essa tecnologia os querem assim, é porque algo há de não submisso, de não inferior, de não valor. Pois, se se criam tantos aparatos para esconderem, matarem, reprimirem os invisíveis, talvez seja porque eles procurem olhar além das perguntas e respostas. Talvez eles criem, e criar é ser! Criar é como parir: algo sai de mim, que já não é e nem nunca foi, cópia. É criar com o que tem, com as condições envoltas, com a dança de Shiva ativa (destruir para construir): mexer, brincar, vasculhar, perceber curiosamente, estar atento. E de tantos verbos, e de tantos outros mais, nascem produtos, nascem seduções. Produto não é tudo que vai ser consumido pela mercado vigente (capitalista, neo-liberal, globalizado, moedas de troca...), mas produto enquanto algo que existe. Existe, criado, sem valores conjugados. E, o preço de uma idéia não existe. Estipulam, fazem leilões, mas concreto, não há. Idéias encontram espaços além dos preços, além dos muros, além dos centros. E que assim seja, uma reza, uma oração, um expurgo. Uma febre cáustica por ser idéia e que não pára.
Pare! Eu não sou uma diva, eu sou uma puta!
Quem se enganou levante a mão.
Vestida de diva para ganhar o sexo que vai satisfazer a puta que em mim há.
Isso é interpelação: levantar a mão vem carregada de um SIM. Um gesto também pode representar o que Geertz desenvolve no encontro entre cultura e semiótica: todo gesto, em cada cultura específica, tem um significado. Nada é à toa. Ou é?
Embora ele possa ter sido enganado pelos nativos, que descobriu o jogo dele antes dele perceber o jogo dos nativos (e que até hoje não percebeu ou não assumiu), ele mesmo assim criou a teoria dele. Talvez não existisse significado nenhum. Talvez fosse algo inventado na hora e, como um tique para enganar quem quer me entender, ganhou uma grande representação explicativa como o mundo daquelas pessoas funcionavam. Lévi-Strauss que o diga, e disse sim: os Nambiquara queriam o poder dele: a escrita. Começou um processo de letrismo. Eles não queriam ser mais iletrados. E não porque catequizaram eles, mas porque eles perceberam, através da maldade em seus corações (que eles podem denominar como o jeito de ser e que possui seu valor positivo), que a caneta e o caderninho compunha um valor intrínseco de poder, de diferenciação e de comando. Saber algo que eu não sei é poder. É abrir as portas para a negociação. É dizer que existe uma proposta de afinidade. E de querer ser o que o outro é, só que do meu jeito. Ser o outro como sou é revolucionário.
É não perder o que tenho e, a partir de mim, é ter mais: o meu e o do outro. Conhecer nunca é pouco e nunca é demais. Jamais serei Judith Butler, mas sendo mais próximo de Nízia Floresta me contento com a tradução cultural que posso fazer da Butler e de suas teorias, numa infidelidade criativa que me surpreende e cria algo novo.
Talvez ser infiel seja uma marca forte para ser explorada com mais afinco. E dela, da infidelidade, as representações passem por um filtro vulgar, hipotético, e que me satisfaz. Porque aprendi a vivenciar com coisas ditas que eram ruins, feias, de baixo valor. Mas, desse ponto posso falar e compensar: se não gostou, me engole! O que seria de mim sem o funk carioca, formulado e criado tantas vezes quão é o número de músicas existentes. As letras do funk carioca quebram tabus e não instauram outros. Quando você pensa que há uma nova normatividade se instaurando, lá vem o funk e diz que já existem outros momentos e que a experimentação já foi além da marcação.
É como um criar pelo que vivo. Reproduzir sim: machismos, antagonismos, ilegalidades... mas tudo é um ponto de vista: depende de quem fala e de quem ouve. Pode ser lei também mas acredito que pouco funciona. O que é a coerção da lei perante a força do desejo?
A lei escapa das bocas, como a certeza fiel e absoluta de uma sociedade perfeita e democrática. Mas a vida, principalmente nas periferias, tem outras flexibilidades, outras concordâncias, outras impostações de voz e de estruturas corporais.
Eu baixo a cabeça e ouço o que os senhores do poder dizem. Mas é baixando a cabeça que posso olhar para a aparelhagem onde vou tocar e criar as batidas. E, a partir daí, mudar o olhar. É uma guerrilha que fervilhou filosófica na ditadura e que continua filosófica atualmente. Ser direto ou indireto é a mesma coisa, a diferença é que uns entendem porque vivem e outros só porque lêem. Os riscos são diferentes mas a mudança que causa é a mesma. Atitude política ou aceitação da frustração são revolucionários. Um porque vai e faz e grita e esperneia e se usa de armas intelectuais ou quaisquer outras para tal. E a outra é porque não cumpre com o dever social de cidadão para fazer uma nação feliz e mais forte. Não posso fazer uma nação mais forte se ela é a primeira a me fragilizar. Então, minha nação eu reconheço no meu irmão, nos que me valorizam e me estimulam e me reconhecem enquanto sujeito. Talvez o preço disso seja uma morte aos vinte anos, uma doença incurável aos quinze, uma prisão aos dezenove. Ou talvez seja a passagem para ter dinheiro, para construir com o mesmo discurso, o discurso de valorização de reconhecimento expandido além: a outros mundos denominados países.

2 comentários:

Max disse...

L.U.X.O.

RICARDO disse...

Esse texto é brilhante! Mas eu fico me perguntando algumas coisas:
- Como se relacionar com os outros e com a vida sem trair ou romper todo esse pensamento transgressor? É Fácil levar isso adiante?
- Tudo deixa de ser uma micro política e passa a ser macro, assimilado. O que fazer quando esse dia chegar? Quando deixar de ser periferia e virar centro? ou é melhor não pensar nisso agora?
Beijo,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br